Friday, December 27, 2013

Duas visões do antropocentrismo, em Bach e Pink Floyd

A Alla sulla quarta corda é uma leve transposição do segundo movimento da suíte orquestral #3 de JS Bach (BWV1068). No que tange uma audição grosseira é basicamente composta por duas melodias: (1) o singelo andamento ditado pelos contrabaixos, e (2) o melancólico lamento das cordas mais agudas, levemente adornado pelo cravo.


O movimento original foi concebido no século XVIII, imbuído de grande influência barroca. Falando em barroco, vale citar que eu não gosto de apelar para os tais períodos - simplesmente porque não nos levam muito longe - mas para o intuito deste texto será mais que suficiente.

Retomando, ao mesmo tempo que a música barroca apresentava um cunho antropocentrista, humanista, diga-se de passagem pela primeira vez na história do ocidente, ainda apresentava-se largamente presa à tradição (teocentrista, secular, etc) e às crescentes exigências formais artísticas, apontando o início de um conflito que só vimos crescer ao longo dos séculos seguintes. Tal conflito, aqui, uma vez que apenas anunciava-se, não foi marcado por grande divergência, pelo contrário; entendo que as duas melodias (1 e 2) remetem aos diferentes interlocutores (secular e antropocentrista, respectivamente), sendo a combinação, a música como um todo, pacífica e contemplativa. Extrapolando, a música aponta para um homem em harmonia e interessado em explorar sua existência e possibilidades.

Passados 250 anos, eu gostaria de citar The great gig in the sky, a quinta faixa do álbum Dark side of the moon - quiça o melhor álbum de todos os tempos - do Pink Floyd. No que tange uma audição grosseira, intro a parte, é basicamente composta por duas melodias: o persistente e martelado andamento ditado (principalmente) pelo teclado, e o desvairado clamor do vocal.


No meu entender, qualitativamente, ambas as músicas são bastante similares: temos a parte melódica, composta por uma primeira que cadencia e controla a segunda, que por sua vez declama e se exaspera, tensionando a nossa audição. No que valem as coincidências, ambas narrativas são entrecortadas por breves interlúdios.

Quantitativamente, claro, elas apresentam as suas diferenças: se os barrocos estavam colocando apenas o dedinho do pé na piscina do antropocentrismo, os manos do Pink Floyd pularam pelados, ainda valendo-se de substâncias psicotrópicas. Não obstante, em The great gig in the sky, a melodia de controle parece ter muito mais trabalho, agindo ativamente de acordo com a intensidade da controlada, até com ligeira impressão de descontrole. Difícil pensar em harmonia em tais condições, que é uma flagrante característica do homem (drogado ou não) antropocêntrico moderno.

Tuesday, October 15, 2013

Desconstruções (aceitas) do relógio analógico

Bom, vamos pular a parte que eu xingo os relógios digitais e apregoo a supremacia dos relógios analógicos... já encheu o saco. Eu também já tratei do assunto, indiretamente, no texto Worst watch ever (http://brazioli.blogspot.com.br/2011/02/worst-watch-ever.html). Se você tem um relógio digital, claro, nem tudo está perdido, até podemos ser amigos, desde que você diga, para mim e em voz alta, que prefere os digitais porque "eu se confundo com os pontero".

Eu tenho a impressão, graças a Deus, que os relógios digitais estão perdendo força. Os relógios-calculadora ainda vivem, mas sem chances de repetir o sucesso de outrora. O único cronógrafo digital que não desagrada aos puristas é aquele usado pela Nasa no lançamento do ônibus espacial. Até os jogadores de futebol estão usando uns cebolões analógicos vendidos por confecções europeias (feitos na China). Nego só usa relógio digital hoje para compor indumentária kitsch.

Eu tive um, e pior que é um design bom

No entanto, o conceito de relógio digital se faz presente mesmo na indústria analógica. Em proporção ínfima, mas se faz presente. Vejamos por exemplo o modelo Zeitwerk da tradicionalíssima A. Lange & Sohne. Acabamento primoroso, design feio, obtuso, germânico e depois de tudo isso cativante, e conceito digital analogicamente implementado. Fazer o que, a gente finge que não vê quando uma grande manufatura faz um negócio destes.


Já deu para entender que eu também não gosto deste tipo de implementação, óbvio. Mas eu não sou um chato total: existem certas desconstruções do relógio analógico tradicional que são aceitas. São apenas duas, são desconstruções bastante simples, mas existem e vem ganhando espaço no mercado, até admiradores, e mais importante, são fiéis ao conceito analógico como conhecemos e gostamos.

A desconstrução mais famosa é aquela que empresta o nome Regulateur ao modelo que a usa. Segue o Grand Regulateur da Chronoswiss. A modificação é um tanto evidente: horas e segundos são descentralizados, o tempo é decomposto em três mostradores. Gostou? Achou babaca, nada demais? Eu falei que as desconstruções são simples.


Passado o xingamento inicial, é engraçado imaginar tal desconstrução como um primo distante do relógio digital: os três mostradores separados, de horas, minutos e segundos, não sugerem um paralelo mais tangível com o formato de hh:mm:ss? Mais, com o Regulateur não há necessidade de "contar os pauzinhos", a informação já vem digerida no dial, como num relógio digital. Elucubrações a parte, não são poucas as manufaturas que contam com um Regulateur em seus catálogos. Olha só o modelo da Patek Phillippe.


A segunda desconstrução não tem nome, e parece ser exclusividade de apenas uma marca. Tudo bem, o Regulateur também começou assim. Sem mais demoras, apresento o modelo Nº 01 da alemã MeisterSinger.


É basicamente um relógio apenas com o ponteiro das horas, um ponteiro grande no caso. O cálculo dos minutos fica a critério do observador, a gradação do dial quebra o tempo em intervalos de cinco minutos. Conceitualmente, é interessante pensar que é um relógio que não mostra o tempo passar, pois o deslocamento do ponteiro único é muito lento, e que a precisão máxima que você terá é de cinco minutos. Em suma, um relógio não obcecado com o tempo, que aponta para um uso de perfil semelhante.

A coisa mais parece um gauge, oriundo de um submarino alemão da segunda guerra mundial, todo flat, o design da "mão" (hand, o ponteiro) ajuda ainda mais na caracterização; ainda assim, com mínimo esforço, somos rapidamente conquistados pela sua simplicidade.

Tipicamente, em fotos de marketing, os relógios analógicos estão sempre mostrando 10:08, pois existe o entendimento que é a angulação de ponteiros mais fotogênica. Você pode checar as fotos de relógios em qualquer site oficial. Num relógio single-handed isso não faz muito sentido, mas mesmo assim os caras da MeisterSinger setaram o relógio para as 10:15. Senso de humor germânico...

Tuesday, August 20, 2013

Caravaggio (parte II)

Como prometido, agora discorrerei sobre a arte de Caravaggio, sobre a informação que ele efetivamente transmitiu por suas telas. Paradoxalmente, vou começar comentando, rapidamente, sobre o seu trabalho dentro da temática religiosa, que no meu ver constitui informação que ele tentou transmitir mas efetivamente não conseguiu (tal deflexão faz-se necessária no intuito de cobrir-se o maior número possível de aspectos de sua obra).

Em teoria, Caravaggio possuía os recursos técnicos para bem expressar tal temática, mas o que as telas mostram são simples reproduções de cenas bíblicas. Tomando a tela abaixo como exemplo, a partir do discutido na parte I é possível apreciarmos vários elementos, mas sobre a cena como um todo apenas observações superficiais são possíveis, o que me obriga a escrever que se ela possui um conhecimento canônico por trás, este conhecimento repousa no cânone e não na tela.

Caravaggio (1601), The supper at Emmaus

Esta é uma observação recorrente na obra de Caravaggio. Claro, a demanda era por cenas bíblicas e muitas cenas bíblicas ele pintou. Pouco posso dizer sobre suas aspirações pessoais ao retratar a temática; sei sobre sua querela com a igreja, mas sei também que fazer telas que irritam a igreja não tem nada a ver com fazer arte. O máximo que posso dizer é que a sua linguagem, o seu chiaroscuro emprestava toda uma dramaticidade e dualismo a um cristianismo que bem se alimenta de tais sentimentos; talvez seja preciso também um espectador do século XVI, culpado e temente à Deus, carregado da mesma dramaticidade e dualismo. Mas enfim, no que tange o meu olhar, há pouca transmissão de mensagem. Há pouca arte. Eu poderia apontar alguma exceção por ai, mas como o nome já diz, seria uma exceção.

Caravaggio (1601), The crucifixion of Saint Peter

Para enxergar a arte de Caravaggio, para que possamos ver a luz no fim do túnel, faz-se necessário abandonar a temática religiosa, transcende-la. Então vamos lá...

Uma outra observação recorrente na obra de Caravaggio é a presença da natureza morta. A representação de elementos como comida, bebida, plantas e animais é tão velha quanto a própria pintura, e as suas origens são carregadas de inúmeros significados que aqui não vem ao caso (e que também desconheço); o nosso querido pintor, claro, já compactuou do uso moderno do padrão: fez deste um laboratório e showcase de certas capacidades técnicas, por exemplo como as de trabalhar com a cor, brincar com o transparente, retratar o brilho e criar textura.

Caravaggio (1597), Bacchus

O que mais capturou a minha atenção na natureza morta de Caravaggio foi a textura mesmo. Tomando a tela acima como exemplo, é notável o aveludado que recobre as frutas, que (artisticamente) induz no espectador um desejo táctil, uma sensação de delicadeza, até de maciez. Uma vez inferido o padrão, é curioso observar que tais sensações remetem também a outros elementos do quadro... às folhas e suas nervuras, à túnica do rapaz, ao dedilhado (vou me permitir usar a palavra extrapolando um pouco sua semântica original) com que o mesmo empunha o cálice, e enfim, lá vai, à própria pele do protagonista (mea culpa... a bichona agora sou eu).

Uma vez inferido o padrão, a busca de corroboração nas outras telas mostra-se bastante frutífera. Começando devagar, segundo os dois próximos exemplos, é o dedilhado, com sua textura, sutileza e delicadeza, o elemento que artisticamente mais se destaca, que mais transmite sensações. É o dedilhado a origem de qualquer dinâmica da cena, lançando os espectadores às subsequentes elucubrações, sendo estas mais previsíveis na primeira tela e mais enigmáticas na segunda, pois a santa dedilha uma espada... devido a mistura de elementos eu só posso achar a cena meio cômica.

Caravaggio (1598), The fortune teller

Caravaggio (1598), Saint Catherine of Alexandria

Na tela abaixo a moça segura (o que parece ser) uma edelweiss, de forma bastante delicada, próxima ao busto e já dirigindo o olhar para o mesmo, que realçado pela luz mostra toda sua maciez e suavidade, sendo delimitado pelo gracioso bordado no vestido (uma das raras ocasiões que Caravaggio destacou sexualmente uma mulher). Ela ainda dedilha o espelho (negro?) com a mão esquerda, e a imagem é complementada pelos tecidos e tons escuros, que fazem com que a tela toda pareça um pouco aveludada. Ou estou enxergando demais?

Caravaggio (1598), Saints Martha and Mary Magdalene

Prosseguindo com a tela abaixo, embora eu ache um show de horrores (deficiente em perspectiva e proporções, com aquele cavalo grotesco ao fundo, o conceito all over the place), sua análise rende algumas linhas interessantes. Em primeiro lugar lá está o jovem imberbe, motivo preferido de Caravaggio, agora dedilhando um violino, numa suposta sublimação do desejo táctil; os tecidos estão lá também, e indago se o pintor fez alguma tentativa de adicionar textura também através da pelugem do cavalo. Mais interessante é a maneira como os pés do senhor estão dispostos, como que esfregando um ao outro, e definitivamente como o adolescente "graciosamente" roça uma perna a outra. Estaria o senhor demonstrando, de forma corporal, toda sua satisfação diante do solo de violino? Ai ai ai...

Caravaggio (1597), The rest on the flight into Egypt

Mantendo em pauta a sublimação do desejo táctil, em algumas telas Caravaggio conseguiu manter a compostura, como na primeira abaixo. E na segunda, mas por pouco... os instrumentos estão no chão, a plumagem do cupido convida ao toque - com destaque para o quase malicioso resvalo da asa na perna esquerda, a qual ainda repousa no confortável tecido - assim como a pele, quase que maquiada, mas enfim, ainda é uma tela bem comportada. O sorriso do garoto é mais inocente e menos suspeito, então vou deixar passar.

Caravaggio (1597), Lute player

Caravaggio (1602), Victorius Cupid

Em algumas outras Caravaggio claramente enfiou o pé na jaca. Dentre uma profusão de jovens com expressões e dedilhados por demais explícitos, a tela que agora comentarei é Boy with basket of fruit (1594). É uma imagem sensacional, claro, toda colorida, aveludada e expressiva, porém, do ponto de vista artístico é uma cômica aberração. Como que se não satisfeito com a textura e ternura do atencioso, corado e cacheado protagonista, Caravaggio adicionou a cesta de frutas, dobrando as sensações, como se ambos estivessem se oferecendo e disputando a libido do espectador... o equivalente disto no mundo real seria observar o coiote se projetar com um estilingue em cima do foguete já em movimento.


Enfim, chegamos ao que considero o crème de la crème da obra de Caravaggio, a série Saint John the Baptist. Os elementos antes apresentados repetem-se porém em máxima expressão: o trabalho em torno da textura é extraordinário, da planta no canto inferior direito à ovelha (certeza que não foi sem querer), passando pelos tecidos e pela pele do jovem, delicadamente esculpida pelo chiaroscuro. O jovem, que repousa confortavelmente sobre a pele de algum animal, apresenta-se não de forma maliciosa, mas sim cândida, sendo que tal candura parece alimentar-se da textura e da luz, o que me faz enxergar um microcosmo onde impera uma grande tranquilidade e harmonia.

Caravaggio (1600), Saint John the Baptist

Os elementos e conceito são exatamente os mesmos, mas o meu Saint John the Baptist preferido é o abaixo: agrada-me mais a genitália coberta, claro, mas adicionalmente a sobriedade e contemplatividade do protagonista. É uma das minhas pinturas preferidas, cuja completude só é afetada pelo título: porque São João Batista, e não simplesmente Boy with stick? Caravaggio pode ter irritado a igreja com suas telas, mas como consequência perdura até hoje uma assimilação imprópria de sua arte; os títulos remetem a elementos ditados pelas escrituras e sua hermenêutica que pouco comunicam-se com a informação em tela, e isso, com razão, confunde os observadores.

Caravaggio (1598), Saint John the Baptist

Depois destas inúmeras telas e de uma miríade de sensações, é fácil anuir com o meu statement inicial, que Caravaggio foi o primeiro a criar arte moderna... aos olhos do homem de hoje, suas telas transmitem sensações inteligíveis e elaboradas, transmitem padrões, ao contrário dos insípidos retratos e telas religiosas daqueles que o precederam (e, novamente, com exceção de El Greco). 

Monday, July 22, 2013

Caravaggio (parte I)

Michelangelo Meresi, ou Caravaggio, nasceu na cidade de Caravaggio, na Itália, em 1571. Se na época era considerado um pintor talentoso porém problemático, a partir da segunda metade do século XX foi considerado um dos maiores de todos os tempos. Sou obrigado a concordar. Além do evidente aprimoramento da linguagem que promoveu, Caravaggio foi um dos primeiros a produzir arte moderna através da pintura (o outro foi El Greco*).

Caravaggio (1606), Seven works of mercy

Herdeiro da tradição renascentista, Caravaggio contribuiu para o desenvolvimento das premissas de tal tradição, levando a construção pictórica da figura humana e da perspectiva a novas direções. Em relação à figura humana, (alguns poucos) pintores anteriores como Jan van Eyck (1390-1441) e Titian (1490-1576) já tinham alcançado uma capacidade avançada de retratar a fisionomia humana. Entretanto, o aperfeiçoamento da técnica ocorreu largamente de maneira "cega", abandonando a temática, sem maiores considerações sobre a expressividade dos retratados. Caravaggio, no mesmo patamar técnico, foi o primeiro a mostrar uma capacidade avançada de "adicionar" expressões a tais fisionomias.

A tela de Jan van Eyck é tecnicamente perfeita porém pouco expressiva

Caravaggio (1594), Musicians

Falando em expressões, já de cara notamos algo interessante, algo que conversa diretamente com o histórico do pintor. Depois de muito navegar pela sua obra, fica a impressão de que os rostos de jovens imberbes, esboçando ora inocentes sorrisos ora não tão inocentes suspiros, são justamente as expressões de maior qualidade artística. Não coincidentemente, há registros na vida do pintor que apontam para episódios de pedofilia. 

Outras expressões, relativamente falando, em algum grau carecem da naturalidade e realismo encontrados nas citadas anteriormente, me parecendo algo caricatas e teatrais. Quiça a Medusa sirva de exemplo. O que você acha? Eu diria simplesmente que o cara obteve os melhores resultados quando pintou o que sentia (bichona). 


Caravaggio (1597), Medusa

Finalizando com as expressões, vale citar que Caravaggio tinha um fetiche todo especial em retratar testas franzidas. De tão frequente que é, o pintor mais parecia estar se exibindo. Curioso mesmo é perceber que, com alguma correlação (ou seja, uma piada com um fundo de verdade), quando a figura não era um velho calvo com a testa franzida ou uma mulher a la virgem Maria, era um jovem imberbe de expressão "duvidosa". É uma tríade que caracteriza a sua obra.

Caravaggio (1605), Saint Jerome Writing (detalhe)

Em relação à figura humana, ainda cabem algumas poucas palavras sobre a corporeidade. Os corpos rechonchudos do período gótico sobreviveram ao renascimento e fizeram-se presentes mesmo no baixo barroco, fazendo companhia aos musculosos disformes. Assim, há pouco na pintura da época que possa explicar a "realidade" subitamente produzida por Caravaggio.


Titian (1542), David and Goliath

Caravaggio (1598), Judith beheading holofernes

Melhor que clamar heuristicamente por um breakthrough, ocorreu-me a única ideia possível, de uma influência da escultura, que já vinha produzindo realidade desde o período helênico. Da Vênus de Milo, do século II, ao Davi de Michelangelo, datado de 1504, uma vasta gama de exemplos estava disponível ao mais atento; dentro desta conjectura, Caravaggio teria sido o primeiro a notar as discrepâncias e incorporar as correções na pintura.

Falando agora sobre a perspectiva, a representação tridimensional do espaço foi uma das principais marcas da passagem da pintura gótica para a renascentista, uma etapa mandatória em direção a uma pintura mais realista. Considera-se que Giotto (1267-1337) foi o primeiro a aplica-la.

Afresco de Giotto

Mas porém todavia contudo, o aperfeiçoamento da perspectiva foi um processo vagaroso; basta ver as telas dos renascentistas pelos séculos seguintes. Observa-se que, embora a representação tridimensional do espaço tenha evoluído, as figuras ainda parecem habitar planos bidimensionais dentro de tal espaço, como nos jogos de videogame de tempos passados, como se fossem recortes colados à tela. A última ceia de Leonardo da Vinci é um exemplo perfeito: observe como o padrão se aplica ao espaço, à Jesus e aos apóstolos. Esta tela é de 1497, quase 200 anos depois de Giotto. 


Já nas telas de Caravaggio observamos representações "tridimensionalmente" fidedignas do espaço e principalmente das imagens que habitam tal espaço. A chamada chiaroscuro, técnica de usar luz, penumbra e sombra, desponta como responsável pelo milagre não observado na santa ceia acima. 

Caravaggio (1599), The martyrdom of Saint Matthew

A tal técnica parece ser composta de dois efeitos, primeiro, em cada imagem isoladamente, relativamente, na medida que a penumbra colore a corporeidade, e em segundo, na tela como um todo, absolutamente, na medida em que há um foco de luz e as imagens acusam suas distâncias de tal foco ao demonstrarem efeitos mais ou menos fortes de penumbra. Pode-se dizer que Caravaggio prescindiu do fundo geométrico, das arestas, e apostou na luz na composição da perspectiva. O resultado é fenomenal. 

Cita-se, a título de curiosidade, que ele não foi o primeiro a perceber a importância da luz (e penumbra e sombra) na aparência tridimensional das imagens, os renascentistas já brincavam com o chiaroscuro desde o começo do século XVI. O aperfeiçoamento último da técnica, no entanto, é mérito de Caravaggio.

Juntando agora a corporeidade de Caravaggio com seu chiaroscuro, a ideia de uma influência da escultura soa cada vez mais verossímil. Se pensarmos, e eu estou pensando neste exato momento, em uma escultura iluminada pelo sol, e em como a luz (e penumbra e sombra) vai migrando pela imagem a medida que o tempo vai passando, bom, isso teria sido um prato cheio para Caravaggio. Nestas horas, dá até para entender porque o cara gostava tanto de um nu: não seria o nosso corpo uma das melhores telas para se retratar a luz?

http://brazioli.blogspot.com.br/2009/03/el-greco.html

Eu não planejava dividir o texto em dois, mas ao final deste desenvolvimento pareceu-me cabível. Assim, aqui acabei falando apenas sobre o "evidente aprimoramento da linguagem", os aspectos que logo de cara separaram Caravaggio de todos que o precederam e foram responsáveis pelo (então) inédito realismo presente em sua obra. No que vale a curiosidade, sua linguagem só foi equiparada décadas depois, por monstros como Vermeer, Rembrandt e Velázquez.

Então, fica faltando falar da sua arte, o que nos remete a uma futura segunda parte...

Thursday, May 23, 2013

Daft Punk (1997), Around the world (videoclipe)

Eu gosto de Daft Punk. Pensando em música, acho que eles estão bem acima da média (a média não é muito parâmetro, eu sei). Gosto dos seus singles e também de alguns dos seus álbuns. Around the world, do álbum Homework, é definitivamente o meu single preferido. Você muito provavelmente já ouviu esta musiquinha chata e monótona, que é definitivamente o meu single preferido e que dá dor de cabeça na minha irmã... mas você já viu o videoclipe?


Por trás desta produção meio tosca repousa uma tentativa bem sucedida de se traduzir uma música em imagens. Não é lá muito fácil... talvez você goste de vários videoclipes, mas quantos deles refletem artisticamente a música? Eu não consigo pensar em muitos que cumpram a tarefa, pelo contrário: o videoclipe de Thriller, do Michael Jackson, de Take on me, do A-Ha, e de Praise you, do Fatboy Slim, foram aqueles que eu consegui lembrar de cabeça.

Embora não tenha o glamour dos supracitados, o videoclipe de Around the world entra fácil na lista. Então vamos lá explicar porque. São cincos os grupos de personagens: os manos (com agasalhos estilo Adidas), as minas (com biquínis antigos), as múmias, os esqueletos e os robôs. O palco é uma clara representação de um LP... do movimento relativo entre agulha e disco é produzido o sinal elétrico que gera o som, e da mesma forma, do caminhar dos personagens pelo palco é gerada a música no videoclipe. Legal, não? 


Não só o movimentar dos personagens gera a música, mas o movimentar de grupos diferentes está relacionado à emissão de sons diferentes. Os manos representam aqueles murmúrios surdos; as minas representam algo como um teclado ou flauta; as múmias a percussão; os esqueletos aquele som que, sei lá, me lembra de molas; e finalmente, os robôs o vocal. Extrapolando para um esquema mais clássico de banda, teríamos baixo, teclado, bateria, guitarra e vocal, respectivamente. Assim, na combinação com o parágrafo anterior, observamos (ouvimos) que a melodia vai ganhando complexidade a medida que os elementos iniciam suas coreografias na tela. 

Além do deslocamento horizontal, também o deslocamento vertical pode implicar em mudanças melódicas. Em especial, para os manos e para as minas, até a metade do videoclipe, subir e descer os degraus da escada significa alcançar notas musicais respectivamente mais altas e mais baixas. 

Logo no comecinho do videoclipe

Idem

Continuando, houve um esforço válido em correlacionar a caracterização dos grupos e coreografias com as suas respectivas melodias. As minas, femininas, representam os agudos, e os manos, masculinos, representam os graves. A coreografia das minas, a little bit over the top, combinada com a indumentária, deveras brega, remete a uma futilidade dos agudos; já a combinação da coreografia e caracterização dos manos, claramente inspirada em motivos urbanos, me foge à compreensão... o todo me faz pensar em contrabaixistas dançando break, mas enfim, a coisa não ficou muito clara para mim. Os robôs casam perfeitamente com a voz sintética, dando a volta no mundo no ritmo ditado pelas múmias. Falando em múmias, não compreendi, também, qual o intuito da respectiva indumentária. Finalmente, eu achei que os esqueletos são uma interessante representação lúdica do tal som de molas, sendo que a dança destes com as minas é impagável (são as duas melodias mais "idiotas" da música)!


Talvez você não goste deste videoclipe, talvez até te dê dor de cabeça, admito que não lá muito likeable, mas para mim videoclipe bom é aquele que reflete artisticamente a música. Quando isso acontece, fica até difícil rastrear se você gosta da música por causa do videoclipe ou se gosta do videoclipe por causa da música. É este o meu sentimento pelo conjunto em questão.

Tuesday, May 21, 2013

Picasso tentou, mas não conseguiu


Las meninas, a obra prima de Velásquez

Eu estava de viagem marcada para a Espanha, e na antecipação da visita aos museus resolvi pesquisar um pouco sobre Velásquez... até então só sabia que ele era espanhol, só sabia que era considerado um grande pintor, mas confesso que num primeiro momento eu enxerguei apenas "mais um retratista barroco", um tanto distante dos meus preferidos da época: El Greco, Caravaggio, Rembrandt e Verneer.

Para minha vergonha confesso que, também, mal reparei na sua obra prima Las meninas. Quando pesquisei o pintor na internet, me deparei com uma infinidade de retratos da corte real espanhola e pinturas sobre temas comuns da época como populares a mesa e passagens religiosas. Não é difícil acreditar que, dado o padrão observado, eu tenha desistido antes de assimilar Las meninas. Acredite também que, quando no museu do Prado, eu passei mecanicamente pela famosa peça, depois de ter visto os belos mas já previamente assimilados retratos dos membros da corte. Particularmente e especialmente gostei dos belos retratos do não tão belo Felipe IV, mas não consegui então vislumbrar nenhum traço excepcional no conjunto da obra de Velásquez.


Velásquez nasceu em Sevilha em 1599. Aos 25 anos, a pedido de um membro da corte, mudou-se para Madrid, firmando-se como primeiro pintor da realeza, posição que ocupou até sua morte em 1660. Por isso, como dito, a maioria de suas pinturas ilustra membros da corte real e da igreja, além de passagens religiosas, que floresceram em seu cânone mais especificamente por causa de viagens à Itália.

Tecnicamente, Velásquez usa linguagem visual comum, brincando com alterações da coloração e contraste, como outros pintores do período. Mas seu estilo é mais sutil; seus quadros não transbordam tantas cores como os de El Greco nem exageram no chiaroscuro como os de Caravaggio ou Rembrandt. Técnica a parte, mais importa que os padrões retratados por Velásquez saltam aos olhos do espectador e levam a uma sensação de realismo até então dificilmente experimentada na pintura.

Las meninas é definitivamente a obra prima de Velásquez. Se não fosse a técnica, tomaria a obra como sendo de outro pintor, dado o número sensivelmente maior de padrões transmitidos. A obra é em si recorrente, a observação dos padrões mais simples leva o observador a uma intricada espiral de assimilação de padrões cada vez mais complexos, o que explica o incrível número de interpretações correntes e de admiradores.

Durante a mesma viagem fui ao museu Picasso, e a minha frustração com a exposição permanente foi logo substituída por uma grande curiosidade pela exposição temporária, cujo título era Olvidando a Velásquez (Esquecendo Velásquez). Tal exposição consiste de uma série de trabalhos de diferentes autores - a maioria entretanto de Picasso - sobre a pintura Las meninas, fato que direcionou minha atenção para a obra, afinal se um artista que eu considero foda como Picasso dignificou-se a tal, lá havia algo a ser apreciado.

Desta exposição, a obra que considero como a melhor, por ter me proporcionado o maior aprendizado sobre Las meninas, foi o vídeo 89 segundos no Alcazar, de Eve Sussman. A artista se propõe a recriar num filme os momentos anteriores a e que culminaram na situação retratada por Velásquez em sua obra prima. Foi meio que um choque, também por causa do conceito inovador e produção impecável, mas principalmente pela quantidade material extraído da antes simples tela. É claro que Eve extrapola os limites artísticos da tela, mas só um louco enxergaria algum devaneio na encenação. E assim meus olhos abriram-se para Las meninas.

http://www.youtube.com/watch?v=sK9N4MQqePY

Picasso gerou 58 interpretações baseadas na obra prima de Velásquez. A maioria delas estava exposta no museu; as obras consistiam desde reproduções isoladas de situações ou pessoas da tela até reproduções integrais. Com meus novos olhos e estranha satisfação percebi que Picasso, sentado em seu trono cubista, 58 telas depois, não chegou nem perto de reproduzir a complexidade e realismo do original de Las meninas. Talvez a linguagem visual cubista, dramática e pungente, não seja a melhor para se transmitir as sutilezas e nuances da tela original. Os olhares, humores, respirações, microcosmos e interfaces entre os mesmos, nada disso estava presente na reprodução de Picasso, ficando esta limitada a uma simples reprodução espacial em linguagem cubista dos elementos do original, apresentando baixo valor artístico. Fico com a sensação (certeza) de que ele fez a sua Las meninas como que desistindo da empreitada, burocraticamente, como que sabendo ele próprio que tentou, mas não conseguiu.


Dali também pintou sua Las meninas, e a dele ficou bem melhor que a de Picasso. E eu estou devendo uma nova visita ao museu do Prado.

Monday, April 29, 2013

Titãs (1986), Cabeça dinossauro

Desde que eu me lembro por gente, Bichos escrotos sempre foi uma das minhas músicas preferidas. Tinha uma versão do João Gordo/Ratos de porão que, putza queo pariu, era tão boa quanto a original... pago uma coca para quem acha-la na internet, pois eu já desisti. Recentemente eu comprei o álbum em questão, mais por causa de Bichos escrotos mesmo, e quando fui perceber lá estão presentes várias daquelas outras músicas tão queridas e famosas do Titãs... a maior surpresa, no entanto, foi perceber que não só as faixas são boas, mas principalmente o álbum, e isso é algo raro.

A mensagem contida é explícita, evidente... basta passar pelas faixas com um pouco mais de atenção. A primeira delas, homônima ao álbum, tem a clara função de apresentar ao ouvinte uma das ideias principais: que o homem é dominado pelo seu lado animal. O ritmo, também, reforça tal ideia ao evocar tambores tribais, remetendo a um contexto menos civilizado, ao mesmo tempo que nos apresenta uma segunda ideia principal, a influência punk rock. Como abertura a faixa é perfeita.

"Cabeça dinossauro
Cabeça dinossauro
Cabeça, cabeça, cabeça dinossauro
Pança de mamute
Pança de mamute
Pança, pança, pança de mamute
Espírito de porco
Espírito de porco
Espírito de porco"


A conhecida AA UU é a segunda faixa. "AA UU" é uma óbvia onomatopeia da "fala" de um macaco, como crianças já fizemos tal imitação pelo menos uma centena de vezes. A letra também é óbvia, uma observação crítica da rotina do dia a dia.

"Eu durmo, eu como
Eu como, eu durmo...

Está na hora de acordar
Está na hora de deitar
Está na hora de almoçar
Está na hora de jantar..."

A desconhecida Igreja é a terceira faixa. O ritmo e atitude são similares aos anteriores, só que agora o alvo da crítica é a religião. "Eu não gosto de padre, eu não gosto de madre, eu não gosto de frei...", e por ai vai. A mais que conhecida Polícia é a quarta faixa. O alvo da crítica é... a polícia.

Estado violência é a quinta faixa. Nunca tinha ouvido, bem chatinha. Supostamente o alvo é o Estado, porém a letra é dispersa e confusa. A face do destruidor é a sexta faixa. Um punk da porra que eu até gostei, apesar que não dá pra entender porra nenhuma.

"O nome do destruidor é
Destruidor
É o nome do destruidor.
O nome do construtor é
O nome
Do construtor...

O destruidor não pode mais destruir
Porque o construtor não constrói..."


Então continuamos com Porrada, outra sem graça (que são as exceções), e depois vamos para Tô cansado, que é um pouco mais legal. Baseando-se no que você aqui já leu e partindo dos títulos é bem fácil inferir a mensagem. Bichos escrotos é a nona faixa. O ritmo é puxado para o punk rock, com aquele vocal agressivo característico, e a letra remetendo novamente ao nosso lado animal.

"Porque aqui
Na face da terra
Só bicho escroto
É que vai ter..."

Família é a décima faixa. Apesar de ser um reggae alegrinho, nota-se que a família é o alvo da vez. Para muita gente e para mim família é sagrada, e aparentemente para os Titãs também, crítica a parte eles usaram aqui um ritmo mais brando e uma mensagem mais sutil.

Homem primata é a décima primeira faixa. "Desde os primórdios até hoje em dia, o homem ainda faz o que o macaco fazia...", caramba, que música legal. Novamente a menção ao lado animal e a supostos desdobramentos sociais do mesmo: o capitalismo e a vida urbana.

Dívidas é uma musiquinha meia boca que critica a situação econômica do assalariado. E finalmente, a décima terceira e última faixa, O que ("É o que não pode ser que não, é o que não pode ser que não é..."), uma criativa ode à negação, à proibição, comumente representados pela palavra "não". 

Sintetizando os parágrafos anteriores, observa-se que o background punk permeia todo o álbum, tanto no ritmo quanto na mensagem. A rotina do dia a dia, religião, polícia, estado, família, capitalismo e até "si mesmo", foram poucos os aspectos da nossa sociedade poupados da crítica, remetendo a aquela velha mensagem de niilismo e anarquismo popularmente associada ao movimento. Ao mesmo tempo que crítica tais instituições o álbum aponta (no próprio título e em quatro das treze faixas ) para o nosso lado animal como culpado, sugerindo uma causalidade que no entanto não fica exatamente clara. Tais instituições não são necessárias ou não funcionam adequadamente porque somos animais? Somos animais e portanto não precisamos de tais instituições? Algo por ai.

Legal agora é avançar a partir de tal mensagem, o que permite uma compreensão ainda melhor da obra. A linha de raciocínio até parece plausível, porém é furada. Bastante furada, por sinal. Bem resumidamente, talvez um dos maiores saltos evolutivos, para a maioria das espécies, foi a habilidade de viver em grupo. Animais e sociedade combinam muito bem, e a partir do momento que grupos mais coesos socialmente prevaleciam sobre grupos menos coesos, a própria habilidade de viver em grupo passou a selecionar os indivíduos. O lado animal do homem, portanto, já é largamente social. E dada nossa exclusiva capacidade intelectual, fomos capazes de desenvolver ainda mais a organização social, vide aspectos como a rotina do dia a dia, religião, polícia, estado, família, capitalismo e até "si mesmo". Isto não é absolutamente um fenômeno moderno, pelo contrário, seus primórdios remetem a algumas dezenas de milhares de anos.

Advogar pelo fim da organização social acaba sendo um retrocesso biológico de proporções ridículas, e se tem um lado que se ressente do controle de tais instituições é o humano, não o animal. Falando em ridículo, eu acho que é o risco que se incorre quando o objetivo é traduzir o anarquismo em ações, em palavras. Nestas horas, sei lá, algum tipo de neoliberalismo acaba sendo uma proposta muito mais realista, muito mais... adulta.

Assim, no afã de se fazer esta crítica punk, e até por almejar algum conteúdo, o álbum acaba exalando alguma infantilidade, a infantilidade de um movimento que, analisando a posteriori, nada mais parece ter sido que uma crise de adolescência levada as últimas consequências. Eu não gosto disso, eu não gosto daquilo, eu não gosto de não, eu estou cansado, estou de saco cheio... eu quero dar porrada. Dá quase para imaginar um adolescente emburrado dizendo estas coisas... não se esquecendo do seu cabelo espetado, pois ele não quer ninguém passando a mão na cabeça dele.

No que você talvez esteja entendendo como minha crítica, na verdade eu considero o caminho para o grande mérito do álbum. Sim, o nosso lado humano ressente-se de muitas coisas na nossa organização social corrente, estejam as instituições funcionando adequadamente ou não; as obrigações, rotina e controle são em algum grau aspectos indesejados do nosso cotidiano, e onde o movimento punk se rebelou completamente contra isso, os Titãs fizeram uma lúdica e jovial adaptação de tais motivos ao cenário nacional. Maneirando um pouco na melodia, brincando com o punk e mesclando com ritmos mais leves, e maneirando um pouco na linguagem, prescindindo dos palavrões e investindo na criatividade, a sensação final é de um agradável equilíbrio artístico entre letra e melodia, resultando num álbum alegre, conciso e de fácil digestão, num álbum que transmite uma mensagem mas que não se leva muito a sério. Resumindo, num álbum muito bom.